Seus NPCs nunca mais serão os mesmos

Cansado de seus jogadores não lembrarem de seus NPCs? Veja algumas dicas para criar NPCs que serão marcantes durante toda a campanha.

Imagem: Cameron VanHook


O RPG é a arte de contar histórias! E histórias precisam de personagens. Mas você já percebeu que aqui a atenção não será para os protagonistas. A atenção será para os coadjuvantes, até mesmos os figurantes. São os personagens que dão vida ao cenário, compondo-o e tornando-o verossímil e plural: os NPCs.


NPC é a sigla para a expressão em inglês Non-Player Character. Traduzindo temos Personagem Não-Jogador ou Personagem Não-Jogável, como comumente se usa. Geralmente, NPCs são as personagens interpretadas pelo(a) narrador(a). Por isso, também são chamadas de Personagens do Mestre, ou PdM.


Durante uma campanha de RPG seus jogadores devem encontrar dezenas de NPCs. Tenho certeza que você quer que eles se lembrem ao menos de alguns deles. Os que ajudaram a completar alguma missão, os que forneceram informações relevantes sobre a história e o cenário e os que negociaram itens importantes...


Por outro lado, criar um NPC memorável está além de dar uma função importante para ele. Porque a informação pode ser lembrada, mas, se seu NPC for apenas mais uma pessoa que interagiu com os jogadores, eles dificilmente lembrarão de verdade de quem ele era.


Quem está aqui? Preparando os NPCs


Quantas vezes você, narrando, já foi pego de “surpresa” quando um jogador quis interagir com alguém que você não imaginou que precisaria saber quem era? Um mercador, um transeunte, etc. E que situação desconfortável é quando você não pensou nas características deste NPC, nem mesmo seu nome!


Portanto, a primeira dica então é: esteja preparado! Uma das coisas que mais pode facilitar sua narração é conhecer o cenário. O cenário precisa ser realista, precisa ser completo e ter elementos que o tornam verossímil. Muitas das vezes, os NPCs são os responsáveis por apresentar o cenário aos jogadores. Portanto, componha primeiro o cenário. Se na sua cidade tem uma feira e você vai descrevê-la para seus jogadores, tenha uma lista de 3 ou 4 NPCs (ou mais se quiser e precisar, claro) que poderão interagir com esses personagens. Se ao entrar na cidade seus personagens passarão por guardas, saiba quem são eles.


Porém, quando falo em lista, não é uma lista de nomes simplesmente, como muito se indica por aí. É uma lista de pessoas (ou quem quer que esteja na sua história). Essa lista precisa dizer coisas importantes sobre seus NPCs. Como resultado, algumas características vão realmente fazer toda a diferença na lembrança de seus jogadores. Como narradora, adotei algumas técnicas para não me perder nos meus NPCs e com um pouco de esforço a mais, tornar alguns realmente memoráveis.


Nome e descrição são um bom começo para NPCs


Antes de mais nada, escolha um nome. A escolha do nome é essencial para se ter um bom NPC. Um nome pode carregar informações marcantes sobre sua história, sem que você precise contá-la; como sua origem, por exemplo. Seja coerente! Se seu NPC é uma pessoa comum, dê-lhe um nome comum. Ou existe alguma grande história sob o nome sofisticado que aquele pobre garoto possui?


Da mesma forma, a descrição do NPC, como em qualquer cena de RPG, também deve ser considerada de extrema importância. Se você não quiser ou não conseguir mostrar nenhuma imagem para ilustrar seu NPC, descreva-o com detalhes. O que ele veste? Como é o seu olhar? Tem alguma mania? Carrega algum objeto? E o cheiro? Quantos anos aparenta?


Como resultado, escolha 3 ou 4 características que considera relevante e lembre-se: não dê todas as informações sobre este NPC logo de cara. Você não sabe tudo sobre uma pessoa apenas por olhar para ela, ou por conversar por 5 ou 10 minutos. Diga aos seus jogadores apenas o que eles são capazes de perceber.


Um quê a mais para os NPCs


Aqui é importante considerar que seu NPC tenha alguma característica marcante. Algum detalhe que pode ser usado para seus jogadores diferenciá-los dos demais. “Ele usa um tapa olho. ”, ou “Ela tem um lenço amarrado no pescoço com um camafeu pendurado nele que, claramente, destoa do restante de seus acessórios.”.


As chances do seu grupo lembrar desse NPC através deste detalhe são grandes. “Lembra daquele grandalhão que sentava sozinho todos os dias naquele canto da taverna, enquanto fazia uma moeda dançar pelos seus dedos? ”.


Em suma, se esses NPCs não serão ponto importante na história, se são só figurantes para compor o cenário, já temos características memoráveis.

Um druida em uma carroça acena para 3 pessoas no meio da estrada. Duas mulheres adultas e uma criança.


E se a gente quiser conhecê-lo um pouco?


A partir daí, conforme seus jogadores vão conhecendo melhor um NPC, vão descobrindo outras características relevantes. Dê a ele gestos, tiques, personalidades exageradas, vícios de linguagem, expressões frequentes ou vozes esquisitas.


Por outro lado, você não precisa ser um dublador profissional e saber fazer uma voz e um sotaque diferente para cada NPC. Só dê personalidade ao conteúdo e à forma que falam e que interagem com as pessoas ao seu redor. Dê a eles individualidades. Da mesma forma que um personagem de jogador possui camadas de profundidade, um NPC também precisa ter.


Um jeito de falar pode ser expressado com um vocabulário específico, uma dificuldade em pronunciar algumas palavras, ou até mesmo um tom mais calmo ou mais explosivo de falar. Considere sua escolaridade, sua cultura familiar, os locais que frequenta e as pessoas com quem convive. O NPC nem precisa interagir diretamente com os personagens dos jogadores, mas ele precisa ser apresentado de maneira coerente.


O poder da observação


Uma dica bônus: observe as pessoas ao seu redor. Quantas formas diferentes de falar a mesma coisa você é capaz de identificar? Quantos comportamentos diferentes você já conheceu? Preste atenção ao seu entorno. Tenho certeza que isso lhe servirá de grande inspiração. O mínimo de interação já exige que o NPC seja capaz de se comunicar. Ainda que por pouco tempo e precariamente. Tenha isso em mente!


Além do mais, leve em consideração também que ninguém tem o mesmo humor todos os dias. Não espere que um NPC recorrente esteja sempre agindo e falando no mesmo tom todos os dias. Dê a ele alguns dias ruins, alguns problemas ou alegrias cotidianas. Dê a ele uma vida real. Que interaja com outros elementos do cenário que não os que estejam apenas no alcance de seus jogadores.


A carga emocional


Um alerta ao entrar nesse campo: Emoções são importantes para criar sessões e NPCs memoráveis. Mas elas devem vir SEMPRE acompanhadas da diversão. Esteja ciente e de acordo com os limites emocionais de todos na sua mesa.


Sempre que alguma coisa nos desperta alguma emoção temos mais chances de memoriza-la. E quanto mais intensa a emoção, mais somos marcados. Eric Kendel, um premiado neurocientista que se dedicou ao estudo da memória humana, em seu livro “Em busca da memória: O nascimento de uma nova ciência da mente”, diz que a carga emocional, positiva ou negativa, tem influência direta na fixação da memória. E é aqui que você tem que pegar seus jogadores. Na emoção!


Para isso, atente-se às preferências do grupo: o que lhes é mais importante e ao que dão mais atenção. E então, dê a eles emoção! Quando narramos, a história é para os jogadores, não para os personagens. São os jogadores que vão levar os personagens para onde acham que devem ir. São os jogadores, que vão ficar com raiva da traição do NPC. Perceber o que seu grupo mais gosta te dará ainda mais elementos para construir um NPC memorável.


O que tem na minha história?


Se está narrando uma história de terror, crie momentos tensos, NPCs misteriosos ou sem escrúpulos. Não tenha medo! Seus jogadores precisam sentir o perigo real das atitudes descontroladas daquele vilão. Se está narrando uma aventura épica, dê a eles momentos dramáticos. Além disso, boas risadas são sempre boas marcas na memória! Divirta-se junto com eles. Dê liberdade interpretativa para você e seus NPCs. Isso também encoraja os jogadores na interpretação de seus personagens, pois há mais envolvimento com a cena e a história.

Não vou defender que todos os NPCs precisam ter uma história profunda e cativante. Todavia, eles não podem simplesmente aparecer, soltar sua fala e sumir como se fossem uma “caixa de texto”. Algumas características serão de extrema importância para tornar seu NPC crível a ponto dele ser considerado parte real do cenário. Até, potencialmente, se tornar alguém que os jogadores considerarão relevante.


Agora, um desafio!


Desafio você, que chegou até aqui nesta leitura! Daqui até sua próxima narração, comece a pensar nos seus NPCs de forma mais abrangente, aprofundada e realista. Simule cenários, conversas e manias. Observe as pessoas ao seu redor. Faça anotações de trejeitos que acha interessante. Treine! Imite pessoas; cenas da sua série preferida. Aprenda algumas piadas ou palavras novas. Use o mundo ao seu redor para se alimentar de referências. Tenho certeza que você sentirá uma diferença considerável e seus jogadores também.


Por último, permita-se aprender. Narrar é prática, treino. Interpretação também. Exercite com um NPC, depois outro, depois outro. Com o tempo, essa prática trará naturalidade e você será capaz de criar NPCs marcantes em todas as suas campanhas. Só tome cuidado para não querer que todos eles sejam memoráveis. Afinal, se todos eles forem marcantes, nenhum realmente fez a diferença. Dose em quem você quer dar mais ênfase. E lembre-se: priorize a diversão!

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